Fazer aulas de defesa pessoal, ter carro
blindado e segurança particular, assim como adotar um comportamento
discreto em determinados ambientes são atitudes que passaram a ser
incorporadas no dia a dia das mulheres que procuram se proteger da
violência.
De acordo com um levantamento divulgado no início de
junho deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um
terço das mulheres no mundo já foi vítima de algum tipo de violência
física. O estudo recente também apontou que aproximadamente 35% das
mulheres com mais de 15 anos já sofreram violência física ou sexual.
No
Brasil, os números são alarmantes. De acordo com o Mapa da Violência
2012, feito pelo Instituto Sangari, seis em cada dez brasileiros
conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica.
O
Pará ocupa o 4º lugar no ranking nacional de violência contra a mulher,
com taxa de 6,1 assassinatos para cada 100 mil mulheres, segundo o Mapa
da Violência 2012. De acordo com a delegada Alessandra Jorge, da
Delegacia da Mulher, os casos de estupro e de violência doméstica são os
que mais vitimam as paraenses. De janeiro até a primeira quinzena de
junho deste ano, a Delegacia da Mulher do Pará registrou 2.986
ocorrências. Ameaça e lesão corporal foram os tipos de violência mais
incidentes, correspondendo a mais de 50% dos registros.
Para a
delegada, as denúncias são um fator positivo e ajudam a proteger as
mulheres que sofrem no ambiente doméstico. \"Mesmo quando há um aumento
no número de casos registrados, vemos isso pelo lado bom. Para nós,
significa que mais mulheres estão denunciando e podem ser ajudadas. No
Nordeste, por exemplo, os registros são pequenos, mas a violência em
casa é bem maior. A questão é que lá elas não falam e sofrem caladas\",
comenta Alessandra Jorge.
Crimes aos quais as mulheres são mais vulneráveis
- Estupro
- Violência doméstica:
- Ameaças;
- Lesão corporal;
- Perturbação à tranquilidade;
- Injúria;
- Vias de fato (empurrões, puxões de cabelo).
Abandono de casos torna difícil a punição dos agressores
A
lei Maria da Penha, criada em 2006, é uma forma de proteção às mulheres
vítimas de violência doméstica. No Pará, há, em média, 600 registros
por mês, feitos diretamente nas delegacias, de casos que se enquadram na
lei. Na Delegacia Virtual, são feitos aproximadamente cem registros
mensais.
Além de punir o agressor, a lei Maria da Penha também
disponibiliza medidas protetivas às vítimas e garante a elas apoio
psicológico, por exemplo. A mulher agredida tem à disposição uma rede de
proteção para ajudá-la no combate da violência, que pode ser
psicológica, moral, patrimonial e sexual.
\"O grande problema é
que muitas mulheres não dão continuidade ao inquérito, o que prejudica o
procedimento como um todo. Elas precisam entender que não basta fazer a
denúncia. É necessário voltar à delegacia para prestar depoimento,
fazer perícia e apresentar testemunhas. Se isso não é feito, o processo
para\", explica Alessandra Jorge.
Para ela, esse é o principal
fator que dificulta a punição do agressor e faz com que a mulher seja
novamente vítima da violência. \"Já que ela não retorna à delegacia, não
temos como iniciar um processo contra o acusado sem os outros
indícios\", comenta a delegada.
Ambiente de trabalho também oferece riscos à segurança
Assim
como o ambiente familiar pode ser um cenário de violência, algumas
mulheres também sofrem com a insegurança no próprio ambiente de
trabalho. Em uma pesquisa realizada em 2007 pelo Centro Feminista de
Estudos e Assessoria (CFEMEA), 24% das brasileiras entrevistadas
disseram sofrer com o desrespeito no trabalho.
Cada profissão tem
os seus riscos, mas, para muitas mulheres, manter a tranquilidade é a
melhor forma de se proteger e diminuir a vulnerabilidade. A advogada
criminalista Paola Sales afirma que aparentar medo constantemente é um
dos principais deslizes cometidos por muitas mulheres. \"Algumas vezes
aparentar estar com medo pode nos tornar mais vulneráveis\", diz ela.
A
advogada, que costuma visitar delegacias e presídios, destaca que
seriedade e discrição são as principais formas de se proteger, e foram
aprendidas no dia a dia, a partir de relatos de outras mulheres que
sofreram algum tipo de agressão no trabalho. \"Procuro ter sempre um
perfil mais sério e ponderar o meu relacionamento com clientes e colegas
de trabalho\", diz Paola Sales.
Ela afirma ainda que autoestima e
boa conduta são as maiores aliadas da segurança e ajudam a evitar outro
problema enfrentado pelas mulheres no ambiente de trabalho: o
preconceito. \"No trabalho, prometo só aquilo que posso cumprir. Já ouvi
casos nos quais advogadas foram agredidas e ameaçadas porque não
tiveram o cuidado na relação com os seus clientes. Esses casos de
violência acontecem, mas acho que o que mais sofremos hoje ainda é o
preconceito\", ressaltou a jovem.
Medo e até falta de tempo são entraves
Alessandra
Jorge explica que há uma série de fatores que faz com que os casos não
passem de estatísticas, já que as mulheres não dão continuidade aos
processos. A dependência emocional e financeira, o medo de expor a
família e até a falta de tempo para ir novamente à delegacia contribuem
para isso. \"A mulher, muitas vezes, acaba deixando a sua própria
proteção e segurança de lado por essas questões complexas. Outras vezes,
elas dizem que não querem os parceiros presos, e que só fizeram a
ocorrência para amedrontá-los\", ressalta a delegada.
A denúncia
ainda é a melhor forma de proteção nos casos de violência doméstica, que
deixam marcas que vão além das físicas. Uma pesquisa realizada em 2007
pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) revelou que mais
da metade das mulheres, em todos os casos de violência, não pede ajuda. A
ajuda só é solicitada quando agressões consideradas mais graves
ocorrem, como ameaças com armas de fogo, espancamento, cortes ou
fraturas.
Advogada escolhe o boxe como ferramenta de defesa pessoal
Para
se defender de alguns perigos das ruas, a advogada Keila Fascio, de 37
anos, fez do boxe um aliado. Desde o ano passado ela faz aulas de luta
como uma forma de defesa pessoal. Hoje, ver um suspeito passando pela
mesma calçada já não gera tanto medo. \"Procurei as aulas primeiro
porque precisava dessa noção de defesa pessoal para um concurso que ia
fazer. Mas depois disso, vi o quanto é importante e me sinto mais
segura\", afirma.
Se antes, ao ver um suspeito, Keila saía
correndo, agora ela é capaz de analisar a situação com mais calma e
procurar uma forma de se defender, desde que o suposto agressor não
esteja armado. \"Claro que se for um assalto à mão armada, eu não vou
reagir. Mas se vejo que é uma pessoa que pode me assediar ou pegar no
meu corpo, já penso em atacar para me defender\", diz.
Os
exercícios, além de colaborar para a queima de calorias, ajudam as
mulheres a melhorar a atenção e a se defender de uma agressão, por
exemplo. A ideia não é fazer com que elas saiam da academia aplicando
golpes, mas que saibam como escapar de determinadas situações e
desenvolver agilidade para fazer a própria defesa.
Paraenses
buscam blindagem de carro - Hoje mais independentes, as mulheres
circulam por diversos lugares, muitas vezes sozinhas. Com rotina
atribulada entre casa e trabalho, cresce a presença da mulher no
trânsito, por exemplo, assim como o medo de assaltos e sequestros em
vias públicas.
Um levantamento feito sobre o comportamento das
mulheres em 2012, realizado pela Associação Brasileira de Blindagem
(Abrablin), apontou que 42,5% do setor da blindagem automotiva
correspondiam a clientes do sexo feminino. O número revelou um aumento
em relação aos 35% registrados em 2011.
\"A blindagem é vista
como uma garantia de proteção, principalmente quando se para em um sinal
vermelho na madrugada ou quando passamos por uma rua com canais aqui em
Belém, que são mais perigosas\", diz o gerente comercial de uma empresa
de blindagens da capital paraense, Péricles Brandão.
De acordo
com ele, as paraenses correspondem a 30% dos clientes que solicitam um
carro blindado, embora muitos homens também procurem o serviço para um
veículo que é usado por toda a família. \"A procura feita por mulheres é
crescente, assim como o mercado, de uma forma geral. É claro que elas
se sentem mais protegidas, mas outros cuidados devem ser levados em
consideração. Não adianta a mulher ter um carro blindado se vai à balada
e estaciona em um local mais afastado. Dentro do carro, a segurança é
garantida, mas, fora, é preciso ter atenção\", destaca.
Dez dicas de segurança
Evite sair sozinha durante a madrugada;
Em festas e boates, não deixe o copo exposto para não correr o risco de outras pessoas colocarem alguma coisa na sua bebida;
Evite sair com desconhecidos, principalmente em encontros marcados pela internet;
Procure deixar seu carro estacionado em locais com movimento;
Tenha sempre em mãos telefones de emergência;
Evite andar distraída, usando o aparelho celular ou mexendo na bolsa;
Varie seus horários e busque rotas diferentes para ir ao trabalho ou escola;
Ao chegar ou sair de casa, verifique se não há algum suspeito nas proximidades da sua residência;
Evite andar em ruas escuras;
Esteja com as chaves em mãos para entrar em casa ou no carro, evitando abrir a bolsa no meio da rua.
Fonte: Amazônia