
Os desafios de construção de
qualquer hidrelétrica na Amazônia são, basicamente, os mesmos. Não é o que se
pode dizer, porém, quando o assunto é a remuneração dos trabalhadores. Há três
dias, os mais de 27 mil trabalhadores da hidrelétrica de Belo Monte estão de
braços cruzados, por conta de negociações sobre reajuste de salário e
benefícios. Basicamente, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da
Construção Pesada (Sintrapav) quer que o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM)
ofereça aos funcionários que atuam na beira do rio Xingu condições análogas
àquelas dadas aos trabalhadores de Jirau e Santo Antônio, hidrelétricas que
estão em fase de conclusão em Porto Velho (RO).
Se um pedreiro que
trabalhava em Jirau decide ir para Belo Monte, situação muito comum em
construção de barragens, ele terá de trocar um salário mensal de R$ 1.392 por
R$ 1.133, uma diferença de 18,6%, segundo informações do Sintrapav Pará. A
cesta básica, que na hidrelétrica do rio Madeira é de R$ 350, cai para R$ 200
em Belo Monte, informa o sindicato. As diferenças de salários e benefícios
costumam ser explicadas, em parte, pelas condições firmadas nos contratos entre
empreiteiras e os consórcios donos das usinas. Para o Sintrapav, o argumento
não explica a situação. "As empreiteiras que atuam nessas usinas são
exatamente as mesmas. O trabalhado desempenhado é o mesmo. São todas obras
localizadas na região amazônica. Não há razão para ter uma situação de tanto
desequilíbrio", disse o vice-presidente do Sintrapav do Pará, Roginel
Gobbo.
O sindicato pede
reajuste de salário de 15% para os funcionários de Belo Monte e cesta básica de
R$ 380. O CCBM ofereceu um reajuste de 11% e cesta básica de R$ 260, mas não
houve acordo. Apesar de o consórcio construtor sinalizar que não pretende fazer
uma contraoferta, são boas as chances de se chegar hoje a uma definição sobre o
fim da greve, em assembleias marcadas para ocorrer entre o sindicato e os
trabalhadores da usina. Caso os trabalhadores decidam por levar a paralisação
adiante, o tema passará a ser tratado pela Justiça do Trabalho. Na prática,
isso não significa melhores condições para os funcionários da usina.
Ao seguir para a
Justiça, o CCBM pode retirar a sua proposta e o reajuste passar a levar em
conta apenas critérios como a correção da inflação. "Sabemos que isso pode
ocorrer, mas essa é uma decisão do trabalhador. O sindicato vai expor a
situação e vamos chegar a uma solução", disse Gobbo.
As paralisações já
se transformaram em uma dor de cabeça para o CCBM e o consórcio Norte Energia,
dono da usina. Ao todo, já são 97 dias com canteiros de obra parados
parcialmente ou integralmente desde o início das obras da hidrelétrica, em
julho de 2011. Isso significa horas extras e mais custos para não comprometer a
meta de ligar a primeira turbina de Belo Monte em fevereiro de 2015. A usina
está em sua fase de pico de obras. Uma negociação sobre aditivo por conta de
custos adicionais já está em andamento entre o CCBM e a Norte Energia.
Procurado pelo
Valor, o CCBM informou que até agora não foi registrado nem um tipo de problema
por conta da paralisação e que todos os funcionários permanecem nos alojamentos
das obras.
Liderado pela
Andrade Gutierrez, o CCBM reúne as construtoras Camargo Corrêa, Odebrecht e
Queiroz Galvão, entre outras. Em Jirau, a empreiteira que comanda as obras é a
Camargo Corrêa. Na hidrelétrica de Santo Antônio, quem está à frente é a
Odebrecht.
Em abril do ano
passado, O Sintrapav chegou a coordenar a paralisação dos trabalhadores por dez
dias. A greve, no entanto, acabou sendo julgada como ilegal pela Justiça do
Trabalho da 8ª Região e todos os trabalhadores foram obrigados a voltar ao
trabalho.
Belo Monte terá
capacidade instalada de 11.233 megawatts (MW), com geração garantida de 4.571
(MW), suficiente para atender 18 milhões de residências, quase 60 milhões de
pessoas. Obra de infraestrutura mais cara do país, o empreendimento tem o custo
total estimado em R$ 29 bilhões.
Valor