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(Foto: Isabelle Araújo/MEC) |
Quando se começa a
aprender? Na opinião de muitos pais e até de alguns profissionais do ensino,
apenas na alfabetização. Até lá, para quem pensa assim, os filhos vão à creche
para brincar e passar o tempo. Mas para os pesquisadores envolvidos na proposta
de educação infantil na Base Nacional Comum Curricular (BNC), o aprendizado dos
pequenos começa muito antes. E brincar não é mero momento de distração.
“A gente está
dizendo que bebê aprende. Não é porque bebê não fala que ele não tem um
conjunto muito interessante de explorações, de brincadeiras, de olhares pro
outro, que são seu jeito de falar”, defende Zilma de Moraes Ramos de Oliveira,
professora da Universidade de São Paulo (USP) e uma das assessoras da educação
infantil no documento.
Para fortalecer essa
ideia e levá-la à prática nas escolinhas Brasil afora, a proposta da BNC para
educação infantil vem recebendo atenção especial. Etapa fundamental e diferenciada
da educação básica, ela não é organizada, por exemplo, em áreas do
conhecimento, como o ensino fundamental e o médio.
“Em primeiro lugar
pela própria faixa etária das crianças. Isso vai demandar uma forma muito
diferente dessa criança se relacionar com o conhecimento, com o mundo. Na
educação infantil, as experiências vividas na instituição são tratadas de forma
mais global”, explica Hilda Micarello, coordenadora da equipe de redação da
Base.
Experiência – Por esse motivo, a
educação infantil no documento está dividida por campos de experiência, que têm
como eixos centrais a ludicidade e as interações – dois aspectos que já
aparecem nas diretrizes curriculares nacionais e são especificadas na Base.
Essa perspectiva se diferencia do que é visto nas escolas de hoje, diz Hilda.
Segundo ela, “há
muitas vezes uma interpretação equivocada de que a educação infantil é para
fazer uma versão adaptada daquilo que se faz no ensino fundamental”. Ela
explica que “muitas vezes as crianças ficas muitas horas sentadas, realizando
tarefas repetitivas e confunde-se o incentivo à leitura e à escrita com passar
exercícios de cópia, cobrir traçados. E são práticas muito equivocadas”, diz
Hilda.
Um dos norteadores
dos campos de experiência, a ideia de interação é inovadora ao considerar que o
ato pedagógico acontece não só do professor para a criança, mas da criança para
o professor e, também, entre as crianças. “É um foco que coloca um outro olhar
sobre o processo de aprendizagem”, defende Zilma. A ludicidade também ganha
importância no texto sobre educação infantil, segundo a assessora, porque é de
0 a 5 anos que acontece a maior e mais importante transformação no jeito da
criança agir.
“Quando
pequenininha, a criança vai reconhecendo os objetos pela sua função imediata.
Um copo é um copo, para ter água. Mas em seguida ela pode pegar o mesmo copo
vazio e usar como chapéu. Pode parecer uma bobagem, mas é uma total inversão da
maneira habitual de se tratar o copo”, diz Zilma. “E desse fazer de conta que é
um chapéu, e no fazer de conta de várias outras coisas, vai aparecendo a
capacidade de lidar com imagens. Se a gente não dá bastante apoio para esse
processo, nós não aproveitamos todo o potencial de desenvolvimento da criança.”
São propostos cinco
campos de experiência na Base. Um deles trabalha o eu, tu e nós, onde devem ser
colocadas as noções de identidade. Outro trata da escuta e da fala, com
estímulo das linguagens oral e escrita, mas também do diálogo entre os
pequenos. Um terceiro aborda as cores, os sons e as imagens, incluindo
linguagens variadas como a musical, a visual, a cenográfica etc.
Há, ainda, o campo
dos gestos e movimentos, que se refere às habilidades do corpo, e por último há
o que toca nas noções de quantidade, medida, tempo e espaço. “Dessa forma, o professor
tem cinco focos que ele pode selecionar pro seu trabalho. Em vez de trabalhar
com matemática, pode escolher a área de ‘eu e outro’, porque as crianças
precisam discutir sobre suas amizades, suas preferências. E essa discussão não
tem área pra ele na educação básica”, explica Zilma.
Brincar – Grande preocupação dos
pais, o aprender a ler e escrever também passa pelo brincar e o interagir na
proposta de educação infantil. Mas, diferente do que se vê hoje, preocupa-se em
não atropelar o momento por que passa o aluno dessa fase. “A escrita não pode
ocupar uma relevância e um protagonismo muito diferente das demais linguagens”,
lembra Mônica Correia Baptista, professora da Faculdade de Educação da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e consultora da Base sobre leitura
e escrita na educação infantil.
O trabalho segue a
concepção de que a criança tem o direito de se apropriar de todas as
linguagens, não apenas a escrita, mas também a oral e a corporal. Sempre
partindo das brincadeiras e das interações, essenciais para a comunicação na
primeira infância.
“A criança brinca
que escreve, brinca que lê, lê imagens, levanta hipóteses. Porque é um sujeito
ativo, inteligente, competente, a gente trabalha na ideia de que é um direito
dela passar por um processo de aprendizagem ativo com um mediador capaz”,
observa a professora.
Fonte: MEC
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